Gosto de Japas, e tu?

Posted on 08 Jun, 2019 by rita prata

Fala-se muito de géneros literários, e é uma questão que também me colocam muito: Qual o meu favorito 🖤?

Apesar de não gostar de colocar as coisas em gavetas, e isto aplica-se a tantas outras como a música ou o cinema, sinto que as gavetas somos nós na nossa individualidade, e nela é que damos sentido a essa arrumação.

rita prata e os seus Japas 🖤

💭Ainda assim, apesar de não se considerar isto um género literário, eu tenho uma forte inclinação para ler livros escritos por autores Japoneses e de preferência com narrativas passadas no Japão 🇯🇵

🍃Tudo começou com Murakami, claro, há muitos anos atrás ainda eu tinha uma cama de solteira em casa dos meus Pais e aproveitava a hora de almoço no intervalo das minhas aulas para subir ao meu quarto e ler só mais umas páginas de Crónica do Pássaro de Corda ou Norwegian Wood. 🍃

“What happens when people open their hearts?”
“They get better.” 

Haruki Murakami – Norwegian Wood
Haruki Murakami – Crónica do Pássaro de Corda

Percebi de imediato que se tratava de algo diferente de tudo o que tinha lido até à altura, que Murakami não era um escritor consensual e dentro da normalidade do que tinha já lido. Não consegui descolar da sua forma de escrever os acontecimentos, as suas intemporalidades, surrealidades e personagens que foi criando. Tudo naquelas linhas era diferente, era estranho, fora do normal, e na maioria das vezes algo que não se conseguia tocar ou imaginar sem a ajuda do autor

“In a place far away from anyone or anywhere, I drifted off for a moment.” 

Haruki Murakami – Crónica do Pássaro de Corda

Lembro-me de na altura em que comecei a ser uma Murakamiana (inventei agora), descrevia os seus livros como algo Lynchiano (inventado também por mim), ler Murakami, para mim, era como ver um filme de David Lynch, e tudo isso era um fascínio de enorme grandeza e complexidade.

Na altura li tudo o que já havia sido editado pelo autor, e continuei a ler até ao seu último, A Morte do Comendador, livro que mexeu demasiado comigo, mas na medida em que eu precisava.

Mais tarde, e porque algo me impeliu a isso, comprei livros de outros autores Japoneses que não conhecia, como a Hiromi Kawakami numa das edições da feira do livro de Lisboa, onde as capas dos seus livros me roubaram o olhar e a carteira 😅ou o Yasunari Kawabata (entre outros), este numa onda mais clássica Japonesa que pela sua história de vida acabou por me cativar também.

Os meus favoritos 🖤

Apesar de serem autores com estilos diferentes há algo que os une, e aqui no meu cantinho tornaram-se nos meus escritores Japoneses favoritos. Não há como dar a volta, as suas narrativas partilham todas o sentimento de que lemos algo muito profundo e que nos modifica por dentro.

Uma escrita que apesar de densa e pouco romanceada, é muito livre, crua, brutal e verdadeira, nem sempre fácil, mas muito cativante e comovente.

A sensação de que há algo superior a nós mas que não sabemos bem o quê. Que nós próprios saímos da nossa carcaça física pela nossa procura interior, e nesse caminho de encontro por vezes (muito ) tortuoso e confuso, quando nos reencontramos, é algo de poderoso e nem sempre fácil de compreender ou digerir.

Lembro-me de após ter lido alguns livros de Murakami ter precisado de algum tempo de introspecção, sem leituras, durante uns bons dias. Aconteceu novamente com o seu último livro onde não li mais nada durante umas boas duas semanas e cheguei a ter sonhos com o Comendador. True shit, não estou a brincar 😂Já vos aconteceu?

Yasunari Kawabata

Com Yasunari Kawabata o caso é também peculiar… Um homem que conheceu a solidão desde pequeno por ter ficado órfão muito cedo, e que relata em A Casa das Belas Adormecidas (livro que inspirou Gabriel García Márquez a escrever Memórias das Minhas Putas Tristes) a vontade do personagem principal equacionar o suicídio, algo que Kawabata sempre recriminou durante a sua vida, e ser depois o próprio autor deste romance a cometer o ato anos mais tarde.

Yasunari Kawabata – A Casa das Belas Adormecidas

Lembro-me de ler a passagem nesse mesmo livro onde menciona um suicídio feliz n’A Casa Das Belas Adormecidas e me ter arrepiado com a contradição dos factos, e com a forma como o próprio decidiu terminar a sua vida.

Também em Terra de Neve o escritor leva-nos novamente para o conflito das relações humanas e numa narrativa pouco linear, e muito densa, acaba por ser pouco consensual entre os leitores. Para mim, é só mais uma obra de arte do escritor.

“Time flows in the same way for all human beings; every human being flows through time in a different way.” 

Yasunari Kawabata

Com Hiromi Kawakami destaco em toda a força Manazuru, a minha primeira aventura com ela… E que aventura. Não conhecia nada da autora, nem a autora mas rapidamente me apaixonei.

Hiromi Kawakami

Kawakami leva-nos numa viagem espiritual, ou interior como quiserem (e eu não tenho qualquer crença religiosa, pelo que o espiritual aqui tem que se ler de outra forma) na procura ou na tentativa de perceber onde está o seu falecido marido. Terá morrido? Um labirinto de emoções de perguntas sem resposta, de sensações humanas e não humanas, como o afecto, o amor, a presença física, e a vida num todo.

Hiromi Kawakami – Manazuru

Tal como Murakami ou Kawabata nesta viagem de procura do seu falecido marido e de respostas para a sua vida, Kawakami usa o surreal, o abstracto, e o intocável para nos descrever os factos ou as memórias.

Em boa verdade todos eles se cruzam neste campo mais etéreo e espiritual, no lado não sensorial da vida, na procura interior humana, na desumanização para voltarmos a viver, seja lá como for.

São, por isso e muito mais, todos eles contadores de histórias que nos mudam por dentro, que nos fazem sentir vivos, humanos, questionar e pensar sobre nós e o que nos rodeia, e nos ajudam a viver as nossas transições, nem sempre lineares ou simples.

Todos transcendem o campo do humano, do racional, da normalidade, ou do que achamos que ela é para chegarem ao fundo do que é mais mundano dentro das nossas relações, e do que nos faz seres humanos capazes de amar, odiar, matar, viver ou morrer ainda que isso não implique uma vida ou morte física.

“How could anyone endure such a state, of having someone there and not there—not there and there—at the same time?” 

Hiromi Kawakami

E acho, ou tenho a certeza, que é por isto que gosto tanto deles. Por desafiarem a minha lógica de uma forma que não consigo controlar, por me agarrem ao primeiro parágrafo, como num labirinto com entrada mas sem saída.

Eu, uma céptica de tudo o que não é tangível. Querem melhor contradição que esta? 😊

Não podia terminar este texto sem um compositor também ele Japonês, pois esta paixão não se extende só à literatura mas a outras artes… Pedia-vos que colocassem o dedo no play, e se vos apetecer reler o texto enquanto ouvem o maravilhoso Akira Kosemura 🖤

Akira Kosemura

2 Comments

  • Alexandra 18 Jun, 2019 at 11:39 am

    Olá Rita!

    Ando atualmente a descobrir o meu gosto pelos japas, apesar de já conhecer o Haruki Murakami, que é quase obrigatório.

    Este fim-de-semana apaixonei-me por outro japonês: Hirokazu Kore-eda. Não sei se conheces o trabalho deste realizador, mas vi Shoplifters e fiquei rendida com a ternura e sensibilidade com que fala de assuntos tão humanos. Recomendo, recomendo e recomendo. Agora quero ver todos os filmes dele (já comecei o The Third Murder) e achei que devia partilhar esta pérola nipónica 😉

    BTW, gostei das melodias de Akira Kosemura. Obrigada por mostrares 🙂

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    • rita prata 18 Jun, 2019 at 1:21 pm

      olá Alexandra!
      antes de mais, sê bem vinda aqui a este cantinho 🙂
      obrigada pela tua partilha, fico muito feliz pela tua recomendação, pois não conheço esse Japa e vou já investigar 😀
      obrigada e espero que seja um até já!
      ria

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